O SpaceBetween conversa hoje com o astrônomo Víctor Almendros-Abad, do Observatório Astronômico de Palermo (INAF), que lidera um dos estudos mais surpreendentes da astronomia recente: a observação de um planeta “rebelde” que cresce como uma estrela.
O objeto, conhecido como Cha 1107-7626, está flutuando livremente pelo espaço — sem orbitar nenhuma estrela — e apresenta um comportamento que desafia as classificações tradicionais: ele está acretando matéria e brilhando como se fosse uma jovem protoestrela.
Essa descoberta borra as fronteiras entre o que entendemos como “planeta” e “estrela”. O fenômeno observado mostra que até mesmo corpos de massa planetária podem, em certas condições, crescer e emitir energia de maneira semelhante às estrelas recém-nascidas. É uma revelação que abre novas perguntas sobre a origem e a evolução dos mundos errantes do cosmos.
Na entrevista, Víctor Almendros-Abad explica como foi identificar esse comportamento inédito, fala sobre os instrumentos utilizados, o papel do VLT e do James Webb, e o impacto que essa descoberta pode ter para as teorias de formação planetária e estelar.
1) Dr. Almendros-Abad, para começar: qual foi o momento “aha!” em que vocês perceberam que esse planeta estava fazendo algo totalmente inesperado?
Víctor Almendros-Abad:
O momento decisivo foi quando observamos que a taxa de acreção — ou seja, de material caindo sobre Cha 1107-7626 — tinha subido repentinamente em quase um fator oito nos meses recentes. Nossa equipe estava monitorando o objeto, e vimos que ele já não se comportava como um planeta “tranquilo”, mas tinha praticamente um crescimento explosivo. Foi aí que entendemos que estávamos diante de algo que borra a fronteira entre planetas e estrelas.

Víctor Almendros-Abad – Astronômico de Palermo do Instituto Nacional de Astrofísica da Itália
2) Para o público leigo: o que significa “crescer como uma estrela”? Qual mecanismo está em ação aqui?
Víctor Almendros-Abad:
Normalmente planetas — como os que orbitam estrelas — crescem por acreção mais moderada ou se formam em discos estáveis. Neste caso, observamos que Cha 1107-7626, que não está orbitando uma estrela (é um objeto flutuante livre), tem um disco de gás e poeira ao seu redor e está absorvendo esse material a uma taxa estimada em ≈ 6 bilhões de toneladas por segundo.
Além disso, vimos evidências de que a atividade magnética está canalizando esse material, algo que normalmente vemos em estrelas jovens. Isso significa que, em termos de crescimento e comportamento, ele se aproxima mais de uma proto-estrela do que de um planeta “maduro”.
3) Qual era a hipótese original sobre esse objeto — e como ela mudou com os dados?
Víctor Almendros-Abad:
Inicialmente, consideramos que o objeto pudesse simplesmente ser um gigante gasoso comum ou um planeta que foi ejetado de seu sistema estelar natal. Mas quando vimos a subida abrupta da taxa de acreção, além da presença de vapor de água no disco — algo tipicamente observado em formação estelar — revisamos nossas hipóteses.
Agora consideramos seriamente que ele pode ter se formado de forma mais semelhante a uma estrela (colapso de nuvem de gás) do que como planeta tradicional.
4) Você disse que esse planeta “não orbita uma estrela” — quais implicações isso tem para a nossa compreensão de planetas livres (“rogue planets”)?
Víctor Almendros-Abad:
Sim — ele está flutuando livremente, sem um sol ao redor. Esse tipo de objeto nos força a pensar em dois cenários: ou ele se formou sozinho, por colapso direto da nuvem de gás (como uma estrela pequena), ou ele foi lançado de seu sistema estelar de origem e continua evoluindo isoladamente.
Nossos dados sugerem que algum desses objetos livres podem se comportar como estrelas em miniatura, ou pelo menos mais próximos disso do que imaginávamos. Isso expande nossa visão de “o que é um planeta”.
5) Que tipo de instrumentos e observações foram fundamentais para essa descoberta?
Víctor Almendros-Abad:
Nós usamos o Very Large Telescope (VLT) do European Southern Observatory no Chile, com o espectrógrafo X-Shooter, além de dados do James Webb Space Telescope (JWST).
A combinação de observações no ultravioleta, visível e infravermelho foi essencial para detectar o aumento da acreção, as mudanças químicas no disco e a presença de vapor de água. Também pudemos rastrear a evolução temporal do fenômeno — algo crucial para entender que o processo era dinâmico, não estático.
6) Que impacto essa descoberta tem para as teorias de formação de planetas e estrelas?
Víctor Almendros-Abad:
Ela sugere que existe uma continuidade entre objetos planetários e estelares — ou seja, a divisão tradicional entre “planeta que orbita estrela” e “estrela que gera fusão nuclear” talvez seja mais tênue do que se pensava. Esse objeto “planetário” está mostrando comportamento de “proto-estrela”.
Assim, nossas teorias de formação precisam contemplar essas “zonas cinzentas” e talvez rever a frequência e a importância dos planetas livres. Em última análise, nos ajuda a entender melhor como a galáxia forma e evolui os corpos de massa muito baixa.

Cha 1107-7626. Imagem artística.
7) Você mencionou que o evento de crescimento pode ser recorrente. O que sabemos sobre a duração e frequência desses surtos de acreção?
Víctor Almendros-Abad:
Boa pergunta — ainda não temos a resposta completa. Observações anteriores de 2016 sugerem que algo similar já tinha ocorrido com este objeto.
Nosso monitoramento mostra que entre final de junho e agosto 2025 houve o pico mais forte identificado até agora. Mas não sabemos se o evento já terminou ou se haverá outros. A duração, a periodicidade e a condição que desencadeia esse “boom” são tópicos de estudo ativo.
8) Para quem acompanha astronomia, quais seriam “os próximos passos” ou experimentos para aprofundar isso?
Víctor Almendros-Abad:
Pretendemos monitorar Cha 1107-7626 de forma contínua, com telescópios de próxima geração como o Extremely Large Telescope (ELT) para observar mais objetos semelhantes.
Queremos responder: quantos planetas livres estão passando por surtos de acreção? Qual a faixa de massas envolvida? Qual a fonte da matéria que alimenta esses surtos? Também vamos investigar o papel do campo magnético — que parece ser um condutor importante no processo. Esses aspectos demandam observação de muitos objetos, não apenas desse caso-isolado.
9) Existe alguma implicação prática ou filosófica dessa descoberta para o público geral?
Víctor Almendros-Abad:
Sim — reflexivamente, ela nos lembra que o universo está cheio de comportamentos inesperados. Mesmo “planetas” podem se comportar como estrelas. Isso amplia nosso conceito de cosmos e sugere que a natureza tem menos “categorias fixas” do que supomos.
Para o público geral: é um convite a manter a curiosidade, a imaginar mundos além do convencional e a entender que somos ainda muito principiantes em conhecer os processos que moldam o universo.
10) Para finalizar: se você pudesse deixar uma mensagem para estudantes ou entusiastas que acompanham essa pesquisa, o que diria?
Víctor Almendros-Abad:
Diria que a astronomia é, em grande parte, sobre surpresa. A descoberta de Cha 1107-7626 nos mostra que, se mantivermos olhos atentos — e instrumentos cada vez melhores — sempre há possibilidade de encontrar algo que desafie o que sabemos.
Mantenham a mente aberta, estudem diligentemente, usem a matemática, usem os dados — mas nunca deixem de olhar para o céu com admiração. Porque é lá que surgem as questões que redefinem nossa visão do cosmos.
Conclusão e Agradescimentos
O SpaceBetween agradece ao astrônomo Víctor Almendros-Abad pela entrevista e pela clareza em compartilhar uma descoberta tão fascinante. Estudos como o do planeta “rebelde” Cha 1107-7626 expandem nossa compreensão do cosmos e nos lembram que o universo ainda guarda comportamentos que desafiam nossas classificações e expectativas.
Foi uma honra registrar esta conversa e levar ao público um tema que reacende a curiosidade sobre a formação dos mundos.
“Eu que agradeço o convite. É sempre um prazer compartilhar ciência e inspirar novas perguntas sobre o universo. Quanto mais olhamos para o céu, mais percebemos o quanto ainda temos a descobrir. Obrigado ao SpaceBetween pelo trabalho de divulgar conhecimento e aproximar as pessoas da astronomia.”
— Víctor Almendros-Abad
Astronômico de Palermo do Instituto Nacional de Astrofísica da Itália

