Há quase três décadas, o Fantástico chocou o Brasil ao exibir uma reportagem que se tornaria uma das mais famosas da história da televisão brasileira: o caso que ficou conhecido como o Incidente de Varginha. Três jovens afirmaram ter visto uma criatura estranha, de aparência “não humana”, em janeiro de 1996.
Em poucos dias, a cidade mineira virou palco de rumores sobre capturas secretas, militares envolvidos, hospitais cercados e até mortes misteriosas.
O que começou como um relato local rapidamente se transformou em um fenômeno nacional — e depois internacional — alimentado por programas de TV, revistas, livros, congressos ufológicos e incontáveis teorias. Desde então, o caso nunca mais saiu completamente do imaginário brasileiro. Mesmo sem provas físicas conclusivas apresentadas ao público, ele continua sendo tratado como o “Roswell brasileiro”.
Agora, com a marca simbólica dos 30 anos, o caso volta com força total aos holofotes, impulsionado por dois movimentos paralelos:
- A retomada do tema por veículos tradicionais, como o Fantástico.
- O lançamento do novo documentário de James Fox, intitulado “Moment of Contact: New Revelations of Alien Encounters”.
A pergunta que não quer calar é: estamos diante de uma reavaliação séria e madura do caso… ou apenas de uma nova onda midiática surfando no mesmo mistério de sempre?
🔍 O ET de Varginha: mistério histórico ou mito midiático?
O caso sempre teve três pilares principais:
- 👧 O depoimento das meninas que teriam visto a criatura.
- 🏥 Histórias envolvendo militares e hospitais da região.
- 🧩 Versões oficiais que negam qualquer evento extraordinário.
Entre esses três polos, se construiu uma narrativa altamente fragmentada. Cada investigador, jornalista ou ufólogo puxou a história para um lado: alguns defendem captura e acobertamento; outros apontam erro de interpretação, histeria coletiva e distorções jornalísticas.

O problema é que, passados 30 anos, o que se tem de novo?
Relatos continuam sendo relatos. Memórias se tornam mais frágeis com o tempo. Pessoas reinterpretam suas próprias experiências à luz de novas narrativas. Isso não invalida automaticamente os testemunhos, mas exige ainda mais cuidado metodológico.
🎥 James Fox e o apelo das “novas revelações”
James Fox se especializou em documentários ufológicos de alto apelo narrativo. Seus filmes são bem produzidos, emocionalmente envolventes e montados como grandes investigações. O problema é que eles muitas vezes trabalham mais com construção de narrativa do que com verificação científica rigorosa.
“Moment of Contact: New Revelations” promete:
- Novos depoimentos de civis e militares.
- Relatos médicos supostamente inéditos.
- Detalhes que “nunca vieram a público”.
Mas é preciso perguntar:
➡️ O que exatamente é novo?
➡️ São novos fatos verificáveis ou apenas novas versões sobre fatos antigos?
➡️ Existem documentos, exames, registros oficiais ou apenas memória humana e testemunho oral?
Quando se vende algo como “nova revelação”, a responsabilidade deveria ser proporcional ao impacto da afirmação. Caso contrário, o termo vira apenas uma estratégia de marketing narrativo.
📺 E o Fantástico? Revisão histórica ou carona cultural?
O Fantástico tem um papel ambíguo nessa história. Foi ele quem ajudou a criar o mito em escala nacional nos anos 1990. Agora, ao revisitá-lo 30 anos depois, surge a dúvida: trata-se de um acerto de contas jornalístico com o passado… ou apenas uma tentativa de recuperar um produto cultural que ainda dá audiência?
Há dois caminhos possíveis:
🟢 Caminho responsável:
- Contextualizar o caso como fenômeno social e midiático.
- Mostrar como a mídia ajudou a moldar a narrativa.
- Ouvir céticos e defensores com o mesmo rigor crítico.
- Questionar memórias, fontes e lacunas.
🔴 Caminho fácil:
- Repetir imagens icônicas.
- Recontar a história sem tensionar suas falhas.
- Reforçar o mistério sem exigir evidência.
- Usar nostalgia e curiosidade como motores de engajamento.
Quando a televisão revisita o caso sem aprofundar suas contradições, ela não está informando — está apenas reciclando mito.
🌍 O contexto global: por que isso volta agora?
O retorno do ET de Varginha não acontece no vazio. Ele vem embalado por:
- Audiências no Congresso dos EUA sobre UAPs.
- Relatórios oficiais falando em “fenômenos aéreos não identificados”.
- Popularização do termo UAP em vez de UFO.
- Uma nova geração interessada em mistério, conspiração e tecnologia.
Nesse cenário, casos antigos ganham nova vida. Não porque surgiram provas novas, mas porque o clima cultural mudou. O público está mais aberto ao estranho. A indústria do entretenimento sabe disso — e explora.

🧠 O perigo da narrativa sem método
Mistérios são fascinantes. Mas quando eles são tratados sem método, viram mitologia moderna.
O risco é duplo:
- Para quem acredita:
- Aceitar qualquer relato como prova.
- Substituir método por emoção.
- Confundir impacto narrativo com verdade factual.
- Para quem é cético:
- Descartar tudo como delírio coletivo.
- Ignorar que fenômenos sociais também merecem estudo sério.
O caso Varginha é interessante mesmo que não haja ET nenhum. Ele mostra:
- Como a mídia constrói realidades.
- Como o imaginário coletivo funciona.
- Como o mistério alimenta identidade cultural.
Mas isso exige análise — não apenas repetição.

📊 Conclusão crítica: entre mistério e mercado
O ET de Varginha virou mais que um caso: virou um produto cultural. Ele gera:
- Turismo.
- Documentários.
- Programas especiais.
- Livros, palestras, eventos.
Isso não é necessariamente errado. Mas precisa ser reconhecido. Quando mistério vira mercado, a linha entre investigação e entretenimento fica cada vez mais borrada.
O Fantástico ao revisitar o tema, e James Fox ao lançar “Moment of Contact: New Revelations”, participam desse mesmo ecossistema: o ecossistema da curiosidade, do enigma e da audiência.

A grande pergunta não é se houve ou não ET em Varginha.
A pergunta é:
🛸 Estamos buscando a verdade…
ou apenas consumindo versões cada vez mais bem produzidas do mesmo mistério?
Porque sem método, sem prova e sem crítica, o que sobra não é investigação.
É mito.
E mito, quando repetido o suficiente, começa a parecer verdade.

