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CERN pode abrir portais para que criaturas desconhecidas entrem e saiam da nossa dimensão? – Spacebetween

CERN pode abrir portais para que criaturas desconhecidas entrem e saiam da nossa dimensão?

CERN, “portais dimensionais” e o caso Astrid Stuckelberger: como a desinformação nasce, cresce e se espalha.

Nos últimos anos — e com força renovada nos últimos meses — uma narrativa alarmista voltou a circular nas redes sociais, podcasts alternativos e sites conspiratórios: a de que o CERN, maior laboratório de física de partículas do mundo, estaria abrindo “portais dimensionais” que permitiriam a entrada e saída de criaturas desconhecidas da nossa realidade.

A história costuma ser atribuída à cientista suíça Astrid Stuckelberger, apresentada como alguém com acesso privilegiado a segredos do CERN e a conversas privadas com físicos da instituição.

Mas o que há de fato, o que é interpretação distorcida e o que é pura ficção conspiratória?

Vamos separar as camadas dessa narrativa.


🔬 O que o CERN realmente faz (e o que ele não faz)

O CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear) é um centro internacional de pesquisa científica fundado em 1954, responsável por algumas das maiores descobertas da física moderna. Seu equipamento mais famoso é o Large Hadron Collider (LHC), um acelerador de partículas de 27 km de circunferência localizado na fronteira entre a Suíça e a França.

O objetivo do LHC é:

  • estudar as partículas fundamentais da matéria;
  • compreender as forças que governam o universo;
  • testar previsões do Modelo Padrão da física;
  • investigar fenômenos como o bóson de Higgs, matéria escura e assimetrias fundamentais.

⚠️ Tudo isso é feito de forma aberta, documentada e publicada em revistas científicas revisadas por pares, com participação de milhares de cientistas do mundo inteiro.

Não existe qualquer evidência de que o CERN:

  • opere programas nucleares secretos;
  • desenvolva tecnologia militar oculta;
  • possua “portais subterrâneos”;
  • tenha aberto passagens físicas para outras dimensões;
  • tenha detectado ou interagido com criaturas não humanas.

🧠 Dimensões extras: ciência real, interpretação errada

Um dos pilares usados para sustentar essas narrativas é a ideia de dimensões extras.
Sim, elas existem — no campo teórico.

Em áreas como:

  • teoria das cordas;
  • modelos de dimensões compactadas;
  • física além do Modelo Padrão.

“Dimensões extras” são construções matemáticas, usadas para tentar explicar inconsistências em equações e fenômenos observáveis.

👉 Isso não significa:

  • portais físicos;
  • vórtices;
  • túneis espaciais acessíveis;
  • passagens abertas por máquinas.

Transformar modelos matemáticos em “portas interdimensionais reais” é um salto direto da ciência para a ficção.


👤 Quem é Astrid Stuckelberger — e quem ela não é

Astrid Stuckelberger é frequentemente apresentada nessas narrativas como “cientista do CERN” ou “insider” do laboratório. Isso não é verdade.

O que ela é:

  • Acadêmica suíça;
  • Formação e atuação em saúde pública, políticas de saúde e envelhecimento;
  • Já teve vínculos com universidades e organismos internacionais, como a OMS;
  • Tornou-se conhecida nos últimos anos por posições controversas, especialmente durante a pandemia de COVID-19.

O que ela não é:

  • Física de partículas;
  • Pesquisadora do CERN;
  • Integrante de projetos do LHC;
  • Autora de estudos científicos sobre física fundamental ou cosmologia.

As declarações atribuídas a ela sobre:

  • “programas secretos”;
  • “portais subterrâneos”;
  • “confissões de físicos do CERN em jantares privados”.

não são acompanhadas de documentos, provas técnicas, registros científicos ou validação independente.

Tudo se baseia em:

  • relatos pessoais;
  • “ouvi dizer”;
  • conversas privadas impossíveis de verificar.

Na ciência, isso não constitui evidência.


🎙️ Como a narrativa foi amplificada

Essas falas ganharam força porque:

  • foram divulgadas em podcasts sensacionalistas;
  • circularam em sites alternativos e redes sociais;
  • foram editadas fora de contexto;
  • misturaram ciência real com medo, mistério e simbolismo.

O Podcast que está disseminando os “achismos” da Dra. é o Inverted World Live.

Em muitos casos, o CERN aparece como:

  • um “templo oculto da ciência”;
  • uma instituição que “brinca de Deus”;
  • um portal moderno para forças desconhecidas.

Esse imaginário não é novo. Ele ecoa:

  • o medo histórico do desconhecido;
  • o choque entre ciência avançada e crenças espirituais;
  • a dificuldade do público em compreender física de altíssima complexidade.

🌐 Por que histórias assim se espalham tão facilmente?

Narrativas sobre portais, entidades e dimensões ocultas:

  • ativam medo e fascínio ao mesmo tempo;
  • oferecem explicações simples para conceitos complexos;
  • transformam ciência abstrata em imagens concretas;
  • criam vilões e segredos ocultos.

Além disso, vivemos uma era de:

  • baixa confiança institucional;
  • consumo rápido de informação;
  • viralização sem checagem;
  • confusão entre opinião pessoal e fato científico.

O resultado é um terreno fértil para a desinformação.


🧠 A estátua de Shiva, outro mito


A estátua de Shiva Nataraja (Shiva como o Senhor da Dança) que fica no CERN não tem nada a ver com rituais, portais, culto ou simbolismo oculto. Ela está ali por razões culturais, diplomáticas e simbólicas, ligadas à própria ciência.

📜 A origem real da estátua

  • A estátua foi um presente oficial do governo da Índia ao CERN.
  • Foi instalada em 2004, durante uma cerimônia formal.
  • O motivo: celebrar a longa parceria científica entre a Índia e o CERN, que existe desde os anos 1960.
  • Cientistas indianos participam ativamente de experimentos do LHC até hoje.

Ou seja: diplomacia científica, não misticismo.

🌀 Por que Shiva, especificamente?

Shiva Nataraja representa, na tradição hindu:

  • o ciclo de criação, destruição e renovação do universo;
  • o movimento eterno do cosmos;
  • a dança como metáfora do ritmo fundamental da realidade.

👉 Esse simbolismo foi escolhido porque dialoga poeticamente com a física moderna, especialmente com ideias como:

  • partículas surgindo e desaparecendo;
  • campos quânticos em constante vibração;
  • transformação contínua da matéria e da energia.

Não é literal. É metafórico.


🧭 Conclusão Spacebetween

✔️ O CERN é um dos centros científicos mais transparentes do planeta;
✔️ Suas pesquisas são abertas, auditáveis e publicadas;
✔️ Dimensões extras existem apenas como hipóteses matemáticas;
❌ Não há portais físicos;
❌ Não há criaturas atravessando dimensões;
❌ Não há provas de programas secretos como os descritos;
❌ As alegações atribuídas a Astrid Stuckelberger não têm base científica.

Pra finalizar, acredito que tem muita gente assistindo Stranger Things, e trazendo a fantasia pro mundo real!

Entre o mistério legítimo do universo e a fantasia conspiratória, a ciência continua sendo nosso melhor filtro — não para matar o fascínio, mas para evitar que ele se transforme em medo fabricado.


🔗 Referências (com links)

SpaceBetween – CERN abriu um portal dimensional: mito ou realidade?
https://spacebetween.com.br/index.php/2024/08/29/cern-abriu-um-portal-dimensional-mito-ou-realidade/

CERN – Large Hadron Collider (LHC)
https://home.cern/science/accelerators/large-hadron-collider

CERN – Perguntas frequentes e mitos
https://home.cern/resources/faqs

CERN – Segurança e riscos do LHC
https://home.cern/science/safety

CERN – Biblioteca de publicações científicas
https://cds.cern.ch

Scientific American – Extra dimensions: teoria e limites
https://www.scientificamerican.com/article/are-there-extra-dimensions/