Booster 19 da SpaceX: dos testes em solo ao caminho para o lançamento

O tweet publicado pela SpaceX anunciando que o Booster 19 estava “preparing to begin prelaunch testing” pode parecer simples à primeira vista. No entanto, essa frase curta carrega um significado profundo dentro do programa Starship / Super Heavy — o projeto mais ambicioso da história da empresa e, possivelmente, da exploração espacial moderna.

Este post explora o que é o Booster 19, quais testes ele enfrenta antes de um voo, por que cada etapa é crítica, e como isso se conecta ao lançamento e aos objetivos de longo prazo da SpaceX, incluindo missões lunares, marcianas e além.


O que é o Booster 19?

O Booster 19 é um estágio primário Super Heavy, projetado para funcionar como o “motor bruto” do sistema Starship. Ele é responsável por:

  • Gerar o empuxo inicial para tirar o conjunto da plataforma;
  • Transportar a nave Starship até velocidades hipersônicas;
  • Separar-se da nave em pleno voo;
  • Retornar de forma controlada para pouso ou captura.

Com cerca de 70 metros de altura, estrutura em aço inoxidável, e equipado com dezenas de motores Raptor, o Super Heavy é o foguete mais potente já construído em termos de empuxo total.

O Booster 19 representa uma geração intermediária do Super Heavy, incorporando aprendizados de protótipos anteriores e refinando sistemas estruturais, de propulsão e de controle.


O que significa “prelaunch testing”?

Quando a SpaceX anuncia que um booster está entrando em prelaunch testing, isso indica o início de uma sequência rigorosa e progressiva de testes em solo, desenhada para validar o veículo antes de qualquer tentativa de voo.

Esses testes não são meramente burocráticos: cada um simula condições extremas que o foguete enfrentará durante o lançamento real.

Abaixo, detalhamos os principais testes pelos quais um propulsor como o Booster 19 passa.


1. Testes estruturais e de pressão (Cryo Tests)

Antes de qualquer ignição, o Booster passa por testes criogênicos, nos quais seus tanques são preenchidos com:

  • Oxigênio líquido (LOX)
  • Metano líquido (CH₄)

Ambos a temperaturas extremamente baixas.

Objetivos:

  • Verificar a resistência estrutural do aço inox;
  • Identificar vazamentos;
  • Avaliar deformações sob pressão real;
  • Validar soldas e juntas.

Durante esses testes, o booster pode apresentar flexões visíveis, algo normal e esperado. Se a estrutura não resistir, o projeto não avança.


2. Testes de sistemas e aviônicos

Paralelamente, são testados:

  • Computadores de voo;
  • Sistemas de telemetria;
  • Sensores de pressão, temperatura e vibração;
  • Comunicação com o centro de controle em Starbase.

Esses sistemas são responsáveis por tomar decisões em milissegundos, especialmente durante eventos críticos como falhas de motor ou separação de estágios.


3. Testes de motores Raptor

O coração do Booster 19 está em seus motores Raptor, movidos a metano líquido e oxigênio líquido.

Antes do voo, esses motores passam por várias etapas:

a) Spin Prime Tests

Simulam o fluxo de propelente sem ignição, garantindo que válvulas, turbobombas e linhas funcionem corretamente.

b) Static Fire Tests

Aqui, os motores são ligados com o foguete firmemente preso à plataforma.

  • Inicialmente, apenas alguns motores;
  • Depois, grupos maiores;
  • Em casos avançados, dezenas de motores simultaneamente.

Esses testes validam:

  • Sincronização de ignição;
  • Estabilidade da combustão;
  • Comportamento térmico;
  • Controle de empuxo.

Um static fire bem-sucedido é um marco crítico rumo ao lançamento.


4. Testes de integração com a Starship

O Booster não voa sozinho.

Após seus testes individuais, ele é integrado à nave Starship, formando o conjunto completo.

Nessa fase, são testados:

  • Sistemas de separação entre estágios;
  • Comunicação entre booster e nave;
  • Sequência de eventos do voo completo;
  • Sincronização de software.

Esse conjunto pode ultrapassar 120 metros de altura, tornando-se o maior foguete já montado.


5. Ensaios gerais de contagem regressiva (Wet Dress Rehearsal)

Antes do lançamento, ocorre o chamado WDR (Wet Dress Rehearsal):

  • Tanques são abastecidos como em um voo real;
  • Contagem regressiva é executada até os segundos finais;
  • Motores não são ligados.

O objetivo é validar toda a coreografia do lançamento, do abastecimento à tomada de decisão final.


E o lançamento? O que acontece depois?

Quando todos os testes são aprovados, o Booster 19 fica oficialmente apto ao voo.

Durante o lançamento:

  1. O Super Heavy acende seus motores;
  2. O conjunto deixa a plataforma em poucos segundos;
  3. Após cerca de 2–3 minutos, ocorre a separação de estágios;
  4. A Starship segue para sua trajetória orbital ou suborbital;
  5. O Booster inicia manobras de retorno.

Dependendo do perfil do teste, o booster pode:

  • Tentar pouso controlado no oceano;
  • Simular retorno à base;
  • Testar manobras de captura pelo sistema “Mechazilla”.

Cada voo é, acima de tudo, um experimento controlado.


Por que o Booster 19 é importante?

Mesmo que não seja o “modelo final”, o Booster 19:

  • Testa soluções que serão usadas em boosters futuros;
  • Alimenta o banco de dados da SpaceX com dados reais;
  • Reduz riscos para missões tripuladas;
  • Aproxima o programa Starship de voos operacionais.

Esse processo iterativo — construir, testar, voar, aprender, repetir — é o que diferencia a SpaceX da abordagem tradicional da indústria aeroespacial.


O papel do Starship no futuro da exploração espacial

O sistema Starship/Super Heavy foi concebido para:

  • Missões lunares do programa Artemis;
  • Transporte de grandes cargas para órbita;
  • Construção de infraestrutura espacial;
  • Colonização de Marte;
  • Redução drástica do custo por quilograma lançado.

Cada booster testado, como o Booster 19, é um passo concreto rumo a esse futuro.


Conclusão

O tweet sobre o Booster 19 não é apenas uma atualização técnica. Ele representa:

  • Anos de engenharia condensados em aço e fogo;
  • Uma filosofia baseada em testes reais, não apenas simulações;
  • Um movimento contínuo rumo a tornar o espaço acessível em escala industrial.

Quando a SpaceX diz que um booster está entrando em prelaunch testing, ela está, na prática, ensinando um foguete a nascer.

E cada nascimento desses nos leva um pouco mais longe da Terra.


Referências e links